Energia e Justiça Climática: A necessidade de uma Transição Equitativa

TRIBUNA LIVRE | Por Viviani Bleyer Remor, socióloga, trabalhadora aposentada da Celesc e ex-dirigente do Sinergia

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A crise climática é um dos maiores desafios do século XXI, e a forma como produzimos e consumimos energia está no centro desse problema. Enquanto os países desenvolvidos historicamente se beneficiaram de combustíveis fósseis para impulsionar seu crescimento econômico, as nações mais pobres e comunidades marginalizadas sofrem desproporcionalmente com os impactos das mudanças climáticas. Diante disso, a justiça climática surge como um princípio fundamental para garantir que a transição energética seja não apenas eficiente, mas também equitativa e inclusiva.

A Desigualdade no Acesso e nos Impactos Energéticos

  1. Responsabilidade Histórica dos Países Ricos

 Os países industrializados, como EUA, membros da União Europeia e China, são responsáveis pela maior parte das emissões acumuladas de gases de efeito estufa desde a Revolução Industrial. No entanto, os efeitos mais devastadores das mudanças climáticas – como secas extremas, inundações e elevação do nível do mar – atingem com mais força nações em desenvolvimento, que contribuíram muito menos para o problema. 

Segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os países mais pobres têm menor capacidade de adaptação e resiliência, aumentando sua vulnerabilidade. Isso configura uma injustiça climática, em que os menos responsáveis arcam com as piores consequências.

  1. Energia Acessível e Limpa como Direito Humano

 Enquanto países ricos investem em energias renováveis e tecnologias verdes, cerca de 759 milhões de pessoas no mundo ainda não têm acesso à eletricidade, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Muitas dessas pessoas dependem de biomassa e carvão para cozinhar, o que gera problemas de saúde e aumenta as emissões locais.  

A justiça climática exige que a transição energética não apenas reduza emissões, mas também garanta energia limpa e acessível para todos, especialmente para populações marginalizadas.  

Os Desafios da Transição Justa  

  1. Financiamento e Transferência de Tecnologia 

Uma transição energética justa requer que países desenvolvidos financiem projetos de energia renovável em nações em desenvolvimento e compartilhem tecnologia limpa. O Acordo de Paris (2015) estabeleceu um fundo de US$ 100 bilhões anuais para ajudar países pobres a enfrentar as mudanças climáticas, mas esse valor ainda não foi totalmente cumprido.  

Além disso, muitas vezes os empréstimos para energia verde vêm com condições que aumentam a dívida externa, perpetuando desigualdades. É essencial que o f inanciamento seja não apenas volumoso, mas também justo e sem amarras exploratórias.

  1. Empregos e Inclusão Social  

A substituição de combustíveis fósseis por energias renováveis deve considerar os trabalhadores e comunidades que dependem economicamente do setor. Uma transição justa exige políticas de requalificação profissional e criação de empregos dignos no setor de energia limpa.  

Movimentos sindicais e ambientais defendem que a descarbonização não pode deixar ninguém para trás. Caso contrário, a resistência à transição energética aumentou, especialmente em regiões onde o petróleo e o carvão são fontes primárias de renda.  

Caminhos para uma Energia Justa e Sustentável 

  1. Democratização da Energia 

 Sistemas de energia descentralizada, como microgrids solares e cooperativas de energia eólica, podem empoderar comunidades rurais e periferias urbanas. Isso reduz a dependência de grandes corporações e garante que os benefícios da energia limpa sejam distribuídos de forma mais igualitária.  

  1. Políticas Públicas Inclusivas 

Governos devem implementar tarifas sociais para energia renovável, subsidiar painéis solares para famílias de baixa renda e priorizar investimentos em regiões mais afetadas pela pobreza energética.

Além disso, a voz das comunidades indígenas , quilombolas e tradicionais deve ser ouvida em projetos de energia, já que muitas vezes são os guardiões de terras ameaçadas por grandes empreendimentos (como hidrelétricas e parques eólicos mal planejados).  

A justiça climática não é apenas um ideal moral, mas uma condição indispensável para o sucesso da transição energética. Enquanto o mundo avança para fontes renováveis, é crucial que os benefícios e os custos sejam distribuídos de forma equitativa. 

Países ricos devem assumir sua responsabilidade histórica, financiando a adaptação climática e a energia limpa no Sul Global. Ao mesmo tempo, políticas locais devem garantir que trabalhadores e comunidades vulneráveis não sejam sacrificados em nome do progresso.  

Só assim construiremos um futuro energético que seja verde, justo e verdadeiramente sustentável para todos. 

Referências: – IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) – Agência Internacional de Energia (IEA) – Acordo de Paris (2015) – Relatórios da Oxfam sobre desigualdade climática

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