No dicionário da gestão moderna, palavras como “equipe” e “trabalhador” parecem ter caído em desuso, substituídas por termos mais vibrantes e sedutores: “time” e “colaborador”.
À primeira vista, a mudança soa como um avanço na humanização das relações laborais, sugerindo um ambiente de cooperação, sinergia e valorização individual. No entanto, quando descascamos essa camada de verniz corporativo, o que encontramos é uma estratégia sofisticada de apagamento da identidade de classe e de aprofundamento da exploração.
O “Time” e a Fantasia da Sinergia Esportiva
A adoção do termo “time” (do inglês team) não é acidental. O objetivo é transplantar para dentro das fábricas e escritórios a lógica dos esportes de alto desempenho. Em um time, a responsabilidade é coletiva: o fracasso de um é o fracasso de todos, e o sucesso individual só existe se servir ao grupo.
Na visão estratégica das empresas, o “time” deve ter interdependência ativa. Se um colega adoece ou não performa, os outros devem “cobrir a falha”. O que o RH chama de “apoio mútuo”, o movimento sindical lê como a transferência da pressão da gerência para os próprios pares.
O trabalhador passa a ser fiscalizado não apenas pelo chefe, mas pelos seus iguais, em um ambiente de vigilância horizontalizada que visa resultados extraordinários — geralmente sem a devida contrapartida salarial extraordinária.
A Cilada do “Colaborador”
A substituição de “trabalhador” por “colaborador” é, talvez, o golpe mais profundo na consciência de classe. O termo “trabalhador” carrega consigo séculos de história, lutas, conquistas e, acima de tudo, o reconhecimento de um antagonismo inerente à relação capital-trabalho. Já o “colaborador” evoca a ideia de um parceiro, um sócio informal que está ali porque “quer”, contribuindo voluntariamente para o sucesso de uma missão maior.
Essa mudança semântica serve a três propósitos ideológicos fundamentais:
- Apagamento da Identidade: Ao se ver como colaborador, o indivíduo perde o vínculo com a luta coletiva. Se somos todos parceiros, por que precisaríamos de sindicatos?
- Falsa Sensação de Igualdade: O termo oculta a hierarquia rígida e a subordinação legal. Na hora de dividir os lucros e as decisões, a “parceria” desaparece rapidamente, revelando quem é o dono dos meios de produção e quem apenas vende sua força de trabalho.
- Meritocracia Neoliberal: O colaborador é incentivado a ir além da sua tarefa básica, a “vestir a camisa” e a se sentir parte essencial da engrenagem. É a subjetividade do trabalhador sendo capturada para que ele se sinta culpado se a empresa não atingir suas metas globais.
O Olhar Crítico: Despertar para a Realidade
Como bem aponta Paulo Lindesay, essa “modernização” da linguagem é um eufemismo que serve aos interesses do modelo neoliberal. Enquanto o trabalhador se perde na fantasia de ser parte de um “time de estrelas”, seus direitos são flexibilizados e sua renda é corroída.
A estratégia de transformar o local de trabalho em um campo de “sinergia e propósito” visa, em última instância, suavizar a realidade da exploração. O colaborador moderno é instado a ser proativo e resiliente, nomes bonitos para quem precisa aceitar jornadas exaustivas e metas inalcançáveis com um sorriso no rosto.
Conclusão: Retomando a Identidade
É preciso que a classe trabalhadora entenda que, independentemente do nome que o RH dê ao crachá, a relação de subordinação permanece. O uso de “time” e “colaborador” é uma ferramenta de alienação linguística.
O desafio do movimento sindical hoje é desconstruir esses termos e reafirmar a identidade do trabalhador. Somente ao se reconhecer como tal é que o indivíduo percebe que seus interesses não são os mesmos do patrão e que a única parceria real que existe é com seus companheiros de luta. Não somos peças de uma engrenagem, nem membros de um time recreativo; somos aqueles que produzem a riqueza do país e exigimos respeito, direitos e dignidade.
A luta começa pela palavra. Quando te chamarem de colaborador, lembre-se: você é trabalhador e sua força está na união da sua classe.

