Vivemos numa era em que o mundo exterior se move mais rápido do que o interior. A tecnologia avança numa velocidade para a qual a alma humana nunca esteve realmente preparada. E nessa aceleração, algo sutil, porém profundo, está acontecendo: estamos gradualmente permitindo que as máquinas organizem a nossa atenção e, através dela, nossas emoções e nossa inteligência.
Os algoritmos das redes sociais e de entretenimento não são meras ferramentas, são ambientes invisíveis. Eles não falam diretamente conosco, mas silenciosamente organizam aquilo que entra em nossas cognições. E aquilo que entra em nossa consciência molda quem nos tornamos.
É imperativo relembrar que, outrora, as emoções humanas eram refinadas através do silêncio, dos relacionamentos, da natureza, da oração e das reflexões. Hoje, elas são cada vez mais estimuladas por sistemas projetados para nos manter excitados, reativos e conectados.
Em outras palavras, medo, comparação, indignação, fantasias e desejos já não mais são apenas fragilidades humanas, eles se tornaram recursos estratégicos, pois são as emoções que geram cliques, tempo de tela, dados e lucro.
E assim, sem perceber, estamos vivendo vidas terceirizadas. Esperamos reações e comentários para nos sentirmos validados. Comparamos nossa realidade interior com fragmentos matematicamente editados da vida alheia. Ou seja, temos a ilusão de estarmos conectados, mas cada vez nos sentimos mais sós.
No entanto, a tragédia não está na tecnologia em si, mas na dependência inconsciente que ela cria, pois quando deixamos de habitar a nossa essência passamos a habitar como somos percebidos socialmente pelos outros e, nesta confusão existencial, a alma começa a definhar.
Além disso, a inteligência pessoal também está sendo remodelada visto que os algoritmos não recompensam profundidade, gratificam velocidade. Não promovem contemplação, mas reação. E, consequentemente, eles fragmentam o conhecimento em infinitos pedaços, mas raramente conduzem à integração.
Como resultado, a mente moderna está se tornando ampla, porém rasa, informada, mas não sábia. Ou seja, deslizamos por uma avalanche de informações, mas raramente nos demoramos na sua compreensão.
Então, a capacidade de silêncio, o foco e a reflexão profunda vão lentamente se dissolvendo e o que perdemos não é inteligência, mas o espaço interior no qual a inteligência se transforma em sabedoria.
Além disso, outro perigo sutil reside na maneira como os algoritmos criam casulos intelectuais, pois ao nos mostrarem constantemente aquilo que já acreditamos, impedem o encontro genuíno com o outro e, assim, a diferença torna–se desconforto, o diálogo transforma-se em confronto e o aprendizado torna-se defesa.
Um dos princípios básicos da educação é que uma mente que nunca é desafiada torna-se rígida, uma consciência que não permite ser questionada, não pode evoluir e, nesta prisão intelectual, surge uma erosão da autonomia intelectual.
Essencialmente, o que vemos determina o que pensamos, o que pensamos molda o que sentimos e o que sentimos direciona como vivemos.
No entanto, quando forças invisíveis controlam aquilo que entra em nosso campo de atenção, naturalmente surge a pergunta: onde está a nossa liberdade?
Esta reflexão é fundamental porque uma mente bombardeada por estímulos incessantes perde sua capacidade de quietude e, se o silêncio se torna incômodo, a solidão, que é o néctar da autorreflexão, torna-se insuportável.
E o silêncio sempre foi o ventre da sabedoria. A quietude sempre foi a passagem para a verdade.
Mesmo assim, precisamos estar cientes de que a tecnologia continuará a evoluir, isso é inevitável. Mas a consciência individual precisa evoluir mais rápido.
Consequentemente, o maior desafio do nosso tempo talvez não seja tecnológico, mas espiritual. Não se trata de rejeitar o mundo digital, mas de não permitir que ele substitua o mundo interior, pois se a consciência não amadurece na mesma velocidade que as máquinas, corremos o risco de nos tornarmos operadores de dispositivos, mas estrangeiros de nós mesmos.
Finalmente, neste complexo ecossistema é crucial entender que é no recolhimento, não na distração, que o ser humano se encontra. É no silêncio, não no ruído, que ele recupera sua plenitude. E é na atenção consciente, e não nas reações automáticas, que a liberdade novamente se manifesta.

