Na era das redes sociais e do “financiamento pessoal”, uma narrativa poderosa e perigosa se disseminou: o enriquecimento rápido através de investimentos na bolsa de valores, criptomoedas ou “ativos digitais” é acessível a todos. Essa promessa de liberdade financeira individual, entretanto, esconde mecanismos estruturais que perpetuam desigualdades e corroem as bases das lutas coletivas por direitos trabalhistas e dignidade.
A glorificação do investidor individual que se torna “milionário da noite para o dia” ignora uma brutal verdade: o mercado financeiro é um campo de batalha onde o capital já existente é a principal arma. Estudos consistentes mostram que a maior parte dos ganhos significativos em ações e criptoativos são concentrados nas mãos dos 1% mais ricos, que possuem acesso a informações privilegiadas, consultores especializados e volumes de capital que permitem absorver perdas e esperar ciclos de longo prazo.
Enquanto um pequeno grupo de investidores institucionais e grandes detentores, também chamados de whales (“baleias”, em tradução literal), movem mercados com alavancagem e algoritmos de alta frequência, o trabalhador médio é apresentado com a imagem de que “qualquer um pode ser Warren Buffett”, em alusão ao bilionário norte-americano que fez fortuna no mercado de ações. Essa fantasia serve para justificar a exposição de pequenos investidores a riscos exorbitantes, enquanto os verdadeiros beneficiários continuam acumulando fortunas através de mecanismos que o público leigo mal compreende.
O que as narrativas populares sobre enriquecimento rápido escondem, contudo, é que Warren Buffett fez sua fortuna na década de 1960, contexto econômico completamente diferente do atual, pois o mercado financeiro mundial evoluiu de um sistema relativamente simples e nacionalizado nos anos 1960 para um ambiente globalizado, interconectado e regulado por uma arquitetura internacional complexa. As taxas de juros hoje refletem não apenas condições internas de cada país, mas também decisões de políticas monetárias coordenadas globalmente. A tributação internacional e a regulação financeira agora operam em um cenário de cooperação multilateral muito mais sofisticado do que aquele existente há seis décadas.
A disseminação desse mito não é acidental – ela floresce em um contexto de precarização generalizada do trabalho. Com a erosão dos direitos trabalhistas, a informalidade crescente, a estagnação salarial e a precarização das relações entre patrões e trabalhadores, o mercado de trabalho deixou de ser uma via plausível para a ascensão social para milhões de pessoas ao redor do globo.
Dessa forma, quando o emprego formal com direitos e perspectiva de carreira se torna algo cada vez mais distante, a promessa do “investidor de sucesso” emerge como uma saída individual para problemas estruturais. A lógica é perversa: em vez de lutar por melhores condições de trabalho coletivamente, o indivíduo é encorajado a ver-se como um empreendedor de si mesmo, responsável por sua própria sobrevivência num sistema excludente. Mais do que isso: quando suas tentativas de enriquecer fracassam, o indivíduo é levado a crer que é o único responsável pelo seu insucesso.
O mito do enriquecimento rápido funciona, então, como um mecanismo de controle social. Ao promover a crença de que o sucesso depende apenas de esforço individual e “inteligência financeira”, ele naturaliza as desigualdades e mascara a exploração. O fracasso do pequeno investidor não é atribuído às assimetrias estruturais do mercado, mas à sua “falta de conhecimento” ou “disciplina”.
Historicamente, as grandes conquistas trabalhistas – jornada de oito horas, férias remuneradas, seguro-desemprego, aposentadoria – foram fruto de lutas coletivas, organização sindical e pressão política. Hoje, essa tradição de luta coletiva está sendo substituída por uma mentalidade de sobrevivência individual onde cada um por si.
A ideia de que “o futuro está na bolsa” ou “é preciso investir para sobreviver” desvia o foco das soluções estruturais para problemas estruturais. Por que lutar por um salário mínimo digno se a promessa é que um “investimento certeiro” pode render milhões? Por que se organizar para melhores condições de trabalho se a narrativa é que o emprego é algo transitório e o verdadeiro caminho é empreender ou investir? Essa transição representa uma vitória ideológica do capitalismo financeiro, que consegue transformar trabalhadores em pequenos capitalistas ambulantes, competindo uns com outros em um jogo de soma zero onde o sistema como um continua extraindo valor.
É fundamental que as novas gerações desenvolvam uma compreensão crítica sobre o funcionamento real do mercado financeiro e seus vínculos com a precarização do trabalho. A saída não está em aderir ao jogo com esperança de vitória individual, mas em reconhecer que o problema é coletivo e a solução também deve ser. Precisamos revalorizar as lutas coletivas, o sindicalismo, a organização política e a busca por políticas públicas que garantam dignidade no trabalho e redistribuição de renda. O futuro não está em cada indivíduo se tornando um minicapitalista, mas em construirmos um sistema em que o trabalho seja valorizado e os recursos sejam distribuídos de forma justa.
A crítica ao mito do enriquecimento rápido é, portanto, uma crítica ao individualismo neoliberal que fragmenta as sociedades e enfraquece as bases da solidariedade. É um chamado para que voltemos a olhar para o coletivo, para as soluções estruturais e para a compreensão de que ninguém se salva sozinho num sistema que precisa ser transformado por todos.
TRIBUNA LIVRE | Por Cristiano dos Passos, trabalhador da Celesc e dirigente do Sinergia

