Sátira sindical sobre a empresa que descobriu a fórmula mágica: reduzir trabalhadores, aumentar a pressão e chamar isso de “modernização”
Era uma vez uma empresa pública. Tinha trabalhadores, sindicatos, plano de saúde, direitos, gratificação de férias e uma empresa de energia que prestava um serviço de qualidade. Até que chegou a privatização — acompanhada da velha promessa de “reestruturação” e “modernização”. Com um toque da varinha do mercado financeiro, trabalhadores começaram a desaparecer, setores foram reorganizados e normas passaram a mudar constantemente. E quem perguntava o que estava acontecendo recebia a resposta mágica: “Precisamos modernizar”. Bem-vindos à modernização! Na AXILA, segundo relatos dos trabalhadores, modernizar parece significar reduzir quadros, aumentar a pressão e criar insegurança. Alguns empregados teriam sido orientados pelas chefias a procurar uma nova posição porque talvez não houvesse espaço para eles na nova estrutura. A recomendação seria encontrar uma “caixinha”, termo usado internamente para indicar um setor onde o trabalhador pudesse continuar trabalhando. É a versão corporativa do antigo “se vira”. Enquanto alguns trabalhadores enfrentariam o chamado ócio forçado, permanecendo sem atividades, outros acumulam tarefas devido à redução do quadro. De um lado, gente sem trabalho. Do outro, gente com trabalho demais. No centro, a palavra mágica: “eficiência”. Outro capítulo é a chamada “Política de Consequências”. Segundo os relatos, trabalhadores convivem com a possibilidade de penalidades que podem ser percebidas como desproporcionais. Trabalha-se, tenta-se não errar e torce-se para que a interpretação das regras esteja correta. Chamam isso de gestão. Quem está na ponta pode chamar de ansiedade. Nem os gerentes estariam livres da receita. Segundo relatos, o Vice-Presidente de Gente teria afirmado que gerente que não “performar” não terá espaço na empresa. A pressão desce pela hierarquia: a direção pressiona os gerentes, os gerentes pressionam as equipes e as equipes passam a pressionar a si mesmas. Nas redes sociais, todo mundo é feliz Enquanto trabalhadores relatam insegurança, pressão e sobrecarga, a empresa apresenta fotografias de empregados sorridentes e histórias inspiradoras. No mundo real relatado pelos trabalhadores, existe medo; na fotografia institucional, felicidade. Talvez seja a nova modalidade de benefício empresarial: o sorriso obrigatório para fins de marketing. Afinal, se a felicidade precisa ser produzida por ordem da chefia, talvez já não seja felicidade. É apenas conteúdo. Plano de saúde e direitos também entram na “modernização” A substituição do antigo plano de saúde e odontológico também teria criado problemas. Trabalhadores relatam que profissionais indicados como credenciados, na prática, não atenderiam pelo convênio. No odontológico, um empregado teria sido informado de que precisaria pagar pelo flúor porque o procedimento não seria coberto. A gratificação de férias também sofreu redução: segundo informações, passou de 75% para 33%, conforme negociação do Acordo Coletivo de Trabalho 2026. Quadro de pessoal, benefícios, gratificação e segurança diminuem. O que não diminui é a cobrança por resultados. Entre 1º de maio de 2024 e 30 de abril de 2026, teriam ocorrido cerca de 1.600 demissões. E, a partir de maio de 2026, as dispensas teriam continuado em ritmo semanal. A justificativa pode ser chamada de reestruturação, mas fica uma pergunta: quanto custa desmontar a experiência acumulada de quem passou anos garantindo a prestação de um serviço essencial? Trabalhador não é linha de uma planilha. É conhecimento, experiência, memória operacional e gente! Esse conto foi escrito por um trabalhador da Axila S.A. e continuará na edição 1708 do jornal Linha Viva.

