‘Colaborador’ não recebe salário!

‘Colaborador’ não recebe salário!

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Está se tornando cada vez mais comum, especialmente nas empresas privadas de energia, não chamar mais os empregados pelo termo “trabalhadores”, e trocá-lo por “colaboradores”. O movimento não é restrito à categoria, mas tem se intensificado nos últimos anos em informativos empresariais, mensagens das chefias aos subordinados e até nos cartões das festas de fim de ano. À primeira vista, a mudança parece inofensiva. Afinal, colaborar é algo positivo. Mas essa troca de palavras não é apenas uma questão de linguagem. Ela carrega uma visão de mundo que busca esconder a verdadeira relação entre capital e trabalho. Quem trabalha vende sua força de trabalho em troca de um salário. Essa é uma relação de emprego, com direitos, deveres e, muitas vezes, interesses diferentes entre trabalhadores e empregadores. Chamar o trabalhador de “colaborador” cria a ideia de que todos estão do mesmo lado, como se empresa e empregados compartilhassem igualmente os mesmos objetivos, os mesmos interesses e os mesmos benefícios. A realidade, porém, é outra. Enquanto o trabalhador luta por melhores salários, condições dignas de trabalho, segurança, jornada justa e respeito aos seus direitos, a empresa busca reduzir custos e aumentar sua rentabilidade. Essa diferença de interesses explica por que existem sindicatos, negociações coletivas, greves e acordos de trabalho. Ao substituir “trabalhador” por “colaborador”, tenta- -se suavizar esse conflito histórico e enfraquecer a percepção de pertencimento à classe trabalhadora. Quem é chamado apenas de colaborador pode deixar de se reconhecer como sujeito de direitos e parte de uma categoria que conquistou férias, 13º salário, licença-maternidade, adicional de periculosidade, jornada limitada e tantas outras garantias por meio da organização coletiva. Aliás, é importante lembrar: o “colaborador” não tem nenhum direito previsto na CLT. Não há vergonha alguma em ser trabalhador. Pelo contrário. É o trabalho que produz riqueza, movimenta a economia e mantém a sociedade funcionando. Reconhecer-se como trabalhador é reconhecer também a importância da solidariedade entre colegas, da organização sindical e da luta permanente para preservar e ampliar direitos. Quando o seu chefe ou a sua empresa chamarem você de “colaborador”, desconfie. Eles estão querendo tirar de você a noção de que você está trocando a sua força de trabalho por um salário. As palavras importam. E, quando se trata das relações de trabalho, elas nunca são neutras. Por isso, defender o uso da palavra trabalhador é também defender a história, a identidade e as conquistas de quem vive do próprio trabalho.

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