A memória não se rende, Presidente Lula

Os pressupostos da governabilidade, meta precária de qualquer democracia, não podem ferir a memória dos povos

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Imagem: Sindjupe

Por Raul Fitipaldi, para o Portal Desacato.info

Se ainda cantamos e ainda sorrimos é porque não esquecemos. Se ainda acreditamos e amamos; se sonhamos e temos esperança é porque sabemos o que custou superar o labirinto de horror que foram as ditaduras do Cone Sul. Lutamos e construímos cada oportunidade para recuperar a democracia e tentamos, mesmo com muita dificuldade, consolidá- -la ainda hoje. 

Todavia, parece que os caminhos se atravessam e essa democracia precisa sofrer com as amnésias programadas pelos líderes que deveriam defendê-la. Vez por outra aparecem sombras na sua trajetória, e pelo uso errático dela, aparecem Bolsonaro, Lacalle Pou, O falecido Piñera, Dina Boluarte, Jeanine Añez e Milei, dentre outras figuras proverbiais do fascismo. Porque não a defendemos como corresponde, porque perdoamos o terror que desorganizou a vida da nossa região, comprometendo o presente e o futuro de cada país. 

Esquecer as ditaduras, não permitir lembrar-se delas, traz consigo vários efeitos negativos para qualquer sociedade e para a consolidação da democracia. A primeira é a negação da verdade. A segunda é a impossibilidade de informar e educar as novas gerações sobre uma passagem decisiva da história que guarda as explicações de muitos desafios ainda presentes. A terceira, e mais importante, é deprimir a justiça para que ela não possa ser executada como correção dos nossos erros. 

Os pressupostos da governabilidade, meta precária de qualquer democracia, não podem ferir a memória dos povos. Menos quando há exemplos sobrados e infames dos riscos de apagar a memória da sociedade. Acaso esquecemos que a primeira mulher presidenta do Brasil, vítima de um golpe de estado, antes foi vítima da prisão e da tortura? O próprio presidente Lula se esqueceu de seus quase 600 dias de prisão injusta para que o fascismo tomasse conta do país, o que derivou mais tarde em 700 mil cadáveres, entre outras desgraças? 

Os gurus da governabilidade precisam entender que a paz negacionista de hoje só faz adiar o conflito de amanhã. Se cumprirmos a obrigação de ir para as ruas recordando os 60 anos do início da ditadura no Brasil, estaremos defendendo a democracia. Estaremos educando-nos para o futuro e estaremos defendendo outra forma de governabilidade, a da justiça. Ao fim, se o sistema sente covardia de quem governa, ele avança e destitui à democracia ou a distorce para seu benefício. Não há saída na negação da verdade e no apagamento da memória, porque a história as recupera e julga os atos de todo ser humano e de todas as civilizações. 

Veja, presidente Lula, um dia nossos povos se prometeram que ditaduras Nunca Mais, e para isso não devem esquecer as ditaduras que sequestraram, violaram, roubaram, torturaram e assassinaram. Você sabe, presidente, que a memória não se rende, ela é que garante a democracia e a justiça. E ela se conquista nas ruas e nos espaços de todas e todos. Portanto, e por causa de seu pedido de esquecimento, é cada vez mais necessário defender a democracia nas praças e avenidas, até para assegurar que seu mandato chegue até o fim, queira o fascismo ou não.

 

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