Que país a gente quer?!

TRIBUNA LIVRE | Por Mauro Passos, ex-dirigente do Sinergia, ex-vereador em Florianópolis e ex-deputado federal por Santa Catarina

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A cada dia que passa, uma agonia. Quando não é ambiental, é comportamental. A sensação de que estamos nos afastando do que seria o esperado para um país pujante como o Brasil, exige uma urgente reflexão. Logo após a bestial invasão dos Poderes da República, em 8 de janeiro de 2023, muita coisa foi devidamente apurada, mas a lentidão das respostas corre contra nós. Vide o que está se passando no Congresso Nacional. O que se observa é um desencanto das pessoas com a política, as pautas impostas são destrutivas. No fundo só servem para alimentar o ódio e minar a democracia. O pior é que tem responsáveis e todos sabem quem são.(*)

Os brasileiros, em sua imensa maioria, são democratas. No entanto, precisam ser alimentados de esperança. Em geral, esperam bem mais do Congresso, cansados que estão da invasão de temas de costume. A prioridade sempre deve ser o país e o bem estar do seu povo. Semana passada, um registro sobre a professora Maria da Conceição Tavares, que recentemente nos deixou foi destaque na rede Linkedln. Na minha conta, em poucas horas, milhares de visualizações. A repercussão que teve só pode ter sido em razão de uma comparação da deputada pelo PT/RJ (1995-1999), que praticava a boa política com conhecimento e rigor na oratória, versus congressistas “sem noção”, que se utilizam de selfies e vídeos.

Com a porteira aberta está passando tudo. O caso mais recente e de repercussão nacional é o Projeto de Lei 1904, que criminaliza a mulher que foi violentada e veio a praticar o aborto. O autor também foi eleito pelo RJ: se trata do pastor evangélico Sóstenes Cavalcanti, do PL. Como era de esperar, o pastor não está só nesse vergonhoso retrocesso legislativo. O próprio presidente da Casa, Arthur Lira, apoiado por seus seguidores mais fiéis, tem facilitado o trâmite dessa matéria. Quem aposta no atraso como forma de fazer política, sente prazer no que faz. Suas iniciativas seguem uma lógica perversa, mentira e desinformação em massa para atender seus objetivos de poder.

No sábado, 15, com o texto já montado  na cabeça, só precisei incluir o que estava acontecendo nas ruas. Por todos os cantos do país, as mulheres estavam protestando. Que boa notícia, a indignação aflorou, dando visibilidade ao país que a gente quer. Em breve a sociedade vai ter que mostrar de que lado está. Até pode ser de uma forma mais fragmentada, por desconfianças na condução política, mas conscientes daquilo que nos une. Ninguém em sã consciência quer viver num país onde as regras que querem nos impor, nos levarão a um caminho sem futuro. (**).

(*) Arthur Lira joga pesado, conhece seus pares. Com o Fundo Partidário, Fundo Eleitoral e emendas parlamentares, são bilhões de reais para ser distribuído entre muito poucos. Para quem faz política por dinheiro, tá um prato cheio. Presidente de partido, virou CEO de uma grande empresa. 

(**) Segundo Eugênio Bucci, ao contrário do pensamento que liberta, a ignorância artificial, criada pela desinformação, aprisiona e cega. Ela é o insumo de maior valor nas redes sociais: entregue de graça para cada indivíduo, custa muito caro para a sociedade. Pense nisso… 

PS – Uma amizade que se mantém no tempo, Laurez Cerqueira, foi meu assessor em Brasília, como também tinha sido de Maria da Conceição Tavares. Nos momentos finais, foi visitá-la em sua morada no interior do RJ. Quando ela faleceu, o bom baiano escreveu um lindo texto no seu blog: “Prefiro ser um dinossauro de esquerda a uma lagartixa neoliberal”. A resposta foi dada por ela a Roberto Campos, o pai, durante um debate de elevada temperatura. A Comissão analisava a quebra do monopólio do petróleo. Logo depois, se sentindo desconfortável com a dura resposta que deu, pediu desculpa a ele. Disse: “que apesar de ser um homem conservador, ideologicamente de direita, era um professor, um intelectual, que deveria ser tratado com respeito, num debate democrático”. Quando a mediocridade cresce, o bom debate desaparece e o respeito também. Como regredimos. O Congresso, que já foi espaço de grandes debates, virou um show de selfies. 

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