Os heróis “catarinas”

LV entrevista celesquianos que ajudaram na reconstrução do Rio Grande do Sul

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Celesquianos têm larga experiência na atuação em catástrofes climáticas: Santa Catarina já passou por várias inundações, vendavais e outros fenômenos climáticos. Talvez por terem passado por tantas intempéries, os catarinenses se tornaram referência no atendimento em momentos tristes como esses. Durante a catástrofe climática de maio no Rio Grande do Sul, a companhia recém privatizada de energia daquele estado, com quadro enxuto de trabalhadores, não conseguiu atender a toda a demanda. A situação crítica exigiu solidariedade da Celesc Pública: trabalhadores foram deslocados ao estado vizinho para ajudar a recompor a energia nas regiões mais afetadas.

Nessa entrevista, conversamos com dois eletricistas da Celesc que se deslocaram ao Rio Grande do Sul para ajudar na recomposição do sistema: Charson Viega da Veiga (Regional de Criciúma) e Ronei Antunes Correa (Regional de Lages). Confira:

LV: Que cenário vocês encontraram no Rio Grande do Sul quando chegaram lá?

Charson: Cenário que jamais imaginávamos encontrar, com tanta destruição, ruas alagadas e muita lama. Por quilômetros observamos a marca onde a água tinha alcançado, olhávamos sem acreditar que tinha chegado naquela altura e por todo o bairro. Vimos concessionárias, lojas, mercados, postos de gasolina, tudo debaixo d’água. Sensação de impotência. Não era apenas uma enchente, era algo que não teríamos como apagar da memória. Cenário onde as pessoas colocavam tudo no lixo e pouco se aproveitava do que restou, em alguns bairros encontramos apenas o poste de ligação no terreno e a casa havia sido levada pela enchurrada. O povo gaúcho é guerreiro e como eles dizem: “Não tá morto quem peleia” e isso era uma motivação para todos nós.

Ronei: Foi um pioneirismo difícil, entramos em uma região onde as coisas já não estavam fáceis antes mesmo da catástrofe. A rede já estava em condições ruins, o serviço de emergência já era feito apenas por empreiteiras e algumas vezes por funcionários sem experiência em serviços de emergência. A experiência foi única até para entender a realidade de outras empresas e de outros trabalhadores. Saímos com a sensação de dever cumprido e com a satisfação de poder ajudar, e a certeza de que nossa mão de obra é diferenciada.

LV: Quais as maiores dificuldades encontraram durante a operação?

Charson: As maiores dificuldades no ambiente onde estávamos eram os pontos alagados, mau cheiro da lama, muito lixo e animais mortos, galhos e paus dentro d’água, locais de difícil acesso. Na execução dos serviços tivemos dificuldade em atividades no barco: tínhamos que nos equilibrar para execução do serviço, as ruas alagadas, muita lama e buracos dificultavam o acesso das camionetes. Em muitos locais foi utilizado a vara telescópica para alcançar os serviços. Também tivemos dificuldade na comunicação com o centro de operações da CEEE Equatorial, atrasando muito o serviço. A rede estava em péssimo estado, bem danificada, cruzetas podres, isoladores muito antigos e alguns dando passagem, 70% dos postes eram de madeira. Quando energizamos, aparecia mais defeitos na rede, má conexões e, na medida em que a carga começava a entrar nos alimentadores, em alguns pontos os cabos rompiam e tínhamos retrabalho. Em meio a tantas dificuldades e a um cenário de guerra, tivemos um trabalho árduo, onde o corpo não respondia mais do cansaço, mas que com muita dedicação e persistência conseguimos executar os serviços e levar um pouco de dignidade aos nossos irmãos gaúchos.

Ronei: As maiores dificuldades foram, sem dúvida, as condições da população. Eram já 23 dias do início das enchentes e a água ainda estava muito alta, e muita gente sem energia.

LV: O que os moradores falavam quando viam vocês trabalhando para religar a energia?

Charson: Saimos da CEEE Equatorial no primeiro dia e fomos a uma comunidade próximo ao bairro Humaitá, onde mais de quatro equipes da CEEE Equatorial tinham ido ao local e não tinham solucionado o defeito. Corremos o circuito apenas uma vez e identificamos o defeito. Era uma cadeia de isoladores dando passagem no último poste do circuito. Tive o privilégio de trocar esse isolador. Em seguida, presenciamos uma das maiores emoções que ja aconteceu em nossas vidas: pessoas nos abraçavam, pulavam de alegria, festejavam e gritavam “a luz voltou!!”, “fazia 25 dias que estávamos sem luz!”, “obrigado, Celesc”, e assim surgiu nosso primeiro vídeo na operação da Grande Porto Alegre. Nos dias seguintes, percebíamos que a água estava baixando com rapidez e que por onde energizamos, as pessoas retornavam para casa para iniciar a limpeza. Passávamos nos bairros e podíamos ver a leitura labial das pessoas falando “Celesc Santa Catarina”! Era o que estava escrito na porta das nossas camionetes. Em vários momentos as pessoas saíam de casa agradecendo, aplaudiam e gritavam “viva Celesc!”, “viva Santa Catarina!” Isso não tem preço, foi muito gratificante recebermos o carinho do povo gaúcho. O mínimo que podíamos fazer é entregar nosso melhor serviço para tentar amenizar a dor que eles estavam passando.

Ronei: No começo os moradores não conseguiam identificar nossas equipes, isso nos causou alguns problemas, pois estavam muito estressados com a concessionária local. Aos poucos, fomos nos adaptando e explicando nossa atuação no estado. Então a opinião da população foi mudando e as recepções eram sempre calorosas. Entre os moradores via-se a alegria quando chegamos para o atendimento, pois não saímos da localidade sem resolver o máximo de problemas possíveis.

LV: Como você enxerga o fato de trabalhadores de uma empresa pública de outro estado ajudarem na recomposição da energia num estado cuja companhia de energia foi privatizada?

Charson: Vejo que não podemos permitir a privatização. No RS, tive o choque de realidade da privatização, começando pela desorganização do pessoal em um evento climático, as falhas técnicas e falta de comunicação. Mas o pior eram os relatos dos consumidores. As pessoas reclamavam da demora nos atendimentos inclusive em áreas que não havia alagado. Moradores relatavam que tinham problemas antes mesmo da enchente. Conversei com empresários que relatavam ter que utilizar geradores pela demora no atendimento. Acredito que é reflexo de funcionários desmotivados com baixos salários, horas extras sendo pagas em banco de horas, sem motivação alguma. Nós, celesquianos, também passamos dificuldades, mas quando ocorre um evento climático em nosso estado, trabalhamos incansavelmente para nosso povo, enfrentamos tempestade por inúmeras horas em meio a ventanias, chuvas e raios, sem pensar quando voltaremos para casa. Devemos lutar pela nossa Celesc Pública e alertar nosso povo que estamos trabalhando para eles e não para os lucros de acionistas. Em relação à questão técnica da ida ao RS, foi uma ótima experiência para podermos adquirir conhecimento de outra concessionária em redes diferenciadas e com troca de experiências entre colegas de outro estado. Também podendo trazer novos recursos e ideias para nossa empresa, analisando pontos positivos e negativos.

Ronei: Acho que falo por todos os que lá estiveram quando digo que o que nos torna uma empresa de qualidade é a nossa condição pública, pois a a nossa forma de enxergar o cliente não como apenas um número de conta ou como faturamento, mais como uma pessoa com as mesmas necessidades nossas. Nosso sentimento de donos da empresa, de família, não existiria sem as garantias que temos. Dentro de SC já tivemos condições adversas e sempre nos abraçamos e trabalhamos até estar tudo normal e até que toda a rede esteja restabelecida. Não pensamos em faturamento. Quantas enchentes enfrentamos e a troca de medidores é a última preocupação. Lá, no entanto, enquanto vínhamos restabelecendo a energia, a terceira vinha atrás trocando medidores. Empresas diferentes, formas diferentes de atuação.

LV: Você esperava uma repercussão tão grande na atuação do trabalho de vocês no RS?

Charson: Não esperava tamanha repercussão, porque foi uma destruição tão grande em proporções que não imaginava que nosso trabalho poderia fazer tanta diferença. Percebi essa repercussão quando pude presenciar a felicidade de gaúchos e gaúchas. E também os agradecimentos das pessoas nas redes sociais. Foi muito gratificante poder ajudar os gaúchos. Gostaria de agradecer aos meus colegas de farda e também às nossas famílias e a todos os envolvidos nessa missão. Cada um fez sua parte, fazendo com que chegasse de fato nossa força-tarefa, levando energia ao RS. Obrigado a todos e que Deus abençoe o povo gaúcho!

Ronei: Quanto à repercussão, sinceramente, não esperava tanto. Pude sentir a alegria das pessoas por terem um pouco de qualidade de vida com o retorno da energia, ver o quanto pequenas coisas do dia a dia, como um banho quente, uma lâmpada acesa para poder cuidar de seu patrimônio, ou ligar o lava jato são importantes. Fomos carinhosamente apelidados de “os guris de SC”, “os guri de Santa” e, onde chegávamos, éramos bem recebidos e celebrados. Posso garantir que não há melhor sensação do que poder ajudar. Principalmente naquilo que fazemos de melhor. Agradeço a todos os envolvidos pela oportunidade de ajudar e de poder, com isso, valorizar mais nosso trabalho e a grandiosidade do que fazemos.

 

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