Seminário em Florianópolis reúne especialistas e dirigentes para discutir soberania, direitos e futuro da água e da energia no Brasil
classe trabalhadora esteve no centro do debate realizado nesta terça-feira, dia 23, em Florianópolis, durante o seminário “Transição Energética Justa, Privatizações e Reestatização: Classe Trabalhadora em Debate”. O evento reuniu especialistas, dirigentes e trabalhadores no auditório do SINTE, no Centro da capital catarinense, para refletir sobre os desafios da conjuntura global e os impactos das políticas de privatização sobre setores estratégicos.
A atividade destacou o papel fundamental da classe trabalhadora na construção de um modelo energético que priorize a justiça social, a soberania popular e a defesa dos bens comuns, como a água e a energia. Em meio às transformações impostas pelas mudanças climáticas e pelas diferentes transições em curso, os participantes reforçaram a necessidade de garantir que esse processo não ocorra à custa da precarização do trabalho e da perda de direitos.
O economista Nelson Karam, do DIEESE, chamou atenção para o fato de que o mundo do trabalho atravessa múltiplas transformações simultâneas. Segundo ele, “estamos passando pela transição digital, pela transição geracional, com uma população cada vez mais idosa, além da própria transição energética”, o que exige planejamento e responsabilidade por parte do Estado e da sociedade.
Karam enfatizou que uma transição verdadeiramente justa precisa estar sustentada em pilares concretos. “Não se faz transição justa sem um plano de médio e longo prazo. É necessário ter uma estratégia de desenvolvimento para o futuro”, afirmou. Ele também destacou a importância da participação social nesse processo: “não se faz transição justa sem o engajamento das comunidades. É preciso congregar um conjunto de atores sociais para representar os interesses de toda a sociedade”.
Outro ponto ressaltado pelo economista foi a necessidade de garantir financiamento adequado para viabilizar as mudanças. “Não se faz transição justa sem recursos. Não adianta ter um plano bonito no papel se não é possível colocá-lo em prática”, completou.
Já Haneron Victor Marcos, ex-Representante dos Empregados no CA da Casan, doutor em gestão pública e especialista em saneamento, abordou os efeitos das privatizações no setor, especialmente no acesso à água e ao saneamento básico. Durante sua apresentação, ele exibiu dados que contestam a ideia de que o Estado brasileiro seja “inchado”, demonstrando que, em comparação internacional, o setor público no País não é excessivo. Também apresentou exemplos de diversas cidades ao redor do mundo que reestatizaram os serviços de distribuição de água, evidenciando limites e problemas dos modelos privatizados e reforçando a importância do controle público sobre serviços essenciais.
Representando o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Gilberto Cervinski trouxe uma análise da conjuntura internacional e das transformações no sistema produtivo global. Segundo ele, há uma mudança em curso na produção de mercadorias em escala mundial, com sinais de decadência industrial em países centrais, como Estados Unidos e nações da Europa, ao mesmo tempo em que se observa a ascensão da indústria chinesa.
Cervinski também destacou mudanças estruturais em setores estratégicos, como a indústria automobilística, que passa por uma transição para os veículos elétricos, inserida no contexto mais amplo da transição energética. Para ele, esse processo ocorre em meio a disputas globais e ao crescimento de forças de extrema direita em diferentes países.
Na avaliação do dirigente, a lógica dominante segue sendo a do modo de produção capitalista, o que impõe limites às soluções apresentadas. “A burguesia não vai apresentar solução para a transição energética. As propostas que aparecem se restringem, em geral, à mudança da matriz energética, mas o problema não é apenas esse”, apontou. Ele também chamou atenção para o papel do capital financeiro: “quem controla a energia hoje é o capital financeiro”, afirmou, defendendo a necessidade de organização popular e de um novo modelo energético comprometido com os interesses da classe trabalhadora.
O seminário também se consolidou como um espaço de articulação e construção coletiva entre diferentes categorias e movimentos sociais, fortalecendo o debate sobre reestatização e a necessidade de retomar o controle público sobre setores estratégicos para o desenvolvimento do país.
Ao final, ficou evidente que enfrentar os desafios da crise climática e das desigualdades sociais passa, necessariamente, pela participação ativa da classe trabalhadora na definição dos rumos da política energética e na defesa dos direitos do povo brasileiro.
O evento foi promovido pela Plataforma Operária e Camponesa para Água e Energia de Santa Catarina (POCAE/SC).

